Arte e Artistas, África na Educação

O país África que o Brasil imagina

por Nara Improta

É história conhecida que o Brasil era parte do tráfico Atlântico de escravos e, por séculos, recebeu africanos escravizados em seus principais portos, incluindo Salvador e Rio de Janeiro. É difícil dar um número preciso (e os estudiosos discordam sobre a sua estimativa), mas sabemos que entre 5 e 14 milhões de almas africanas foram tiradas à força em navios negreiros. Nem todos chegaram ao Brasil.

Então, não é uma coincidência que a nossa história, cultura e identidade estão profundamente marcados por esta presença africana. “O que faz uma brasileira estudando litaratura/história africana?” algumas pessoas me perguntam na minha universidade no Reino Unido. Eles claramente não conhecem o Brasil e a nossa história. Nós brasileiros temos a África em nossas canções de ninar, em nossa comida, em nossa roupa, danças, religiões, nas nossas ruas, nas nossas veias! Pelo menos isso é o que nós, brasileiros, gostamos de pensar: que por causa da escravidão, temos um conhecimento que foi herdado desse país… quero dizer, continente …!

Em 2003, o CCBB recebeu a exposição “Arte da África”.  No website do município do Rio de Janeiro diz que “se você pretende ir para a exposição Arte da África, você deve se preparar para soltar o seu lado tribal e tocar os tambores! (…) Para ser visto e não tocado há mais de 300 peças de 31 países africanos, que foram produzidos entre os séculos XV e XX.” Os países a que se referem não foram listados.

Lembro-me muito bem desta exposição. Esculturas, pinturas, máscaras e utensílios, de uma beleza estonteante, apresentados sem uma organização por escolas artísticas ou países. A cabeça de bronze Reino do Benin do século XV aparecia ao lado de um colar  Maasai (Quênia) do século XIX. É tudo africano, não importa o local, período, ou até mesmo movimento artístico. Esta generalização da África não é exclusiva brasileira. Em uma visita à Paris, fiquei decepcionada quando percebi que as seções africana e latino-americana (com exceção da arte Egípcia, que por razões sinistras não é considerada africana) tinham sido transferidas do Louvre para o Musée du Quai Branly,  e organizadas em uma exposição denominada “Art primitif”. Por lá, cabeças de bronze do Benim também foram misturados com colares Maasai.

Para os que não entendem a minha frustração com este tipo de exposições eu tenho uma proposta: vamos organizar uma exposição chamada “Arte da Europa” e misturar obras de DaVinci, Velázquez e Rodin. Um ao lado do outro. Sem explicar ou diferenciar escolas artísticas ou lugares de produção. Ah, e é claro que não podemos esquecer a porcelana chinesa (de Portugal) e os colares de pérolas. Autor: desconhecido.

Em 2003, o ensino de história da África se tornou obrigatório nas escolas. E quando nós professores tivemos que entar nas salas de aula e ensinar história africana, percebemos que a África que conhecemos aqui no Brasil é a África da escravidão. Nós sabemos sobre a África que está em nossas histórias; a África das nossas músicas, das nossas religiões; a África que está em nossas ruas, e que agora é brasileira. Pensamos em África como uma unidade, como um país, que é congelado no espaço e no tempo, sem história, ou movimentos artísticos. Para nós, a África é definida pelas experiências horríveis do comércio de escravos do passado, e pela fome e guerras do presente. Nós não sabemos nada sobre os países africanos, histórias africanas, as literaturas africanas. Nós não sabemos a diferença entre Benin e Quênia, entre Chinua Achebe e Shaun Waal.

Como eu disse antes, não estamos sozinhos. No link abaixo a gente pode ver o vídeo de uma apresentação no TED da premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no qual ela nos fala sobre a idéia de África que ela encontrou quando foi estudar nos EUA. Chimamanda chama atenção para os perigos do que ela denominou de história única, que só admite uma versão, e lida com estereótipos. No caso da África, uma história única de pobreza.

Chimamanda Adichie no TED

“Claro, África é um continente repleto de catástrofes. Há as enormes, como as terríveis violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que não são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas. “

Onde eu quero chegar com isso? bem, vou deixar que a Chimamanda responda por mim:

” Histórias importam. Muitas histórias importam.Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo,mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida. “

Quando o ensino da história da África tornou-se obrigatório em nossas escolas, foi o primeiro passo para combater a ignorância e o racismo. Mas o tipo de história que estamos ensinando importa. Será que estamos contribuindo para o estereótipo de África pobre ou estamos valorizando a África? Estamos dizendo que os brasileiros descendentes de africanos escravizados têm a sua história familiar ligada a um continente confuso (no passado e presente) ou estamos olhando para os muitos países, muitas culturas, muitas histórias que contribuíram para nossas culturas e histórias brasileiras? E como vamos fazer para evitar a história única da África?

Sobre Nara Improta

Nara has a PhD in English Literature from the University of Sussex, where she studied the intellectual production in Lagos-Nigeria in the late 19th and early 20th centuries. Trained as a historian at the Universidade Federal Fluminense in Rio de Janeiro-Brazil, she also has an MA in African Studies from El Colegio de Mexico, in Mexico City. She is currently living in sunny Rio. email: nara@africainwords.com Twitter: @naraimprota

Discussão

2 pensamentos sobre “O país África que o Brasil imagina

  1. Ontem estava conversando sobre como as histórias das famílias no Brasil constituem um tabu. A grande maioria das pessoas desconhece suas origens e sua hereditariedade. É a história do apagamento, uma grande perda de autonomia e auto-estima do brasileiro.
    Acredito que uma saída para a questão de uma história única da África seria conhecer um pouco da história e da cultura dos países e grupos culturais africanos. Apesar da complexidade e delicadeza que essa sugestão requer, considerando que as fronteiras foram estabelecidas pelos países colonizadores e não pelos grupos culturais ali existentes.
    Sinto-me ligada a África por algumas razões. Fico pensando… meu bisavô era negro e minha avó nasceu em 1920, muito pouco tempo depois da abolição. Não sei qual grupo cultural ele pertencia. Como reconectar essa história? São fissuras, herança do preconceito e de políticas com ideologias mesquinhas.

    Publicado por Mônica Linhares | 1 de Setembro de 2012, 9:07

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  1. Pingback: The country Africa that we imagine in Brazil « Africa in Words - 29 de Agosto de 2012

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